vida curva e recurva

vida

Anúncios
Imagem | Publicado em por | Etiquetas | Publicar um comentário

vais em papel velho

Ficheiro_000

Imagem | Publicado em por | Etiquetas , | Publicar um comentário

Estás ali sem medo e por fim

Sabes que o mais dificil é outra coisa, é chegares ao fim ou perto disso e não teres feito nada de relevante. Nada mesmo. Não teres contribuido com nada. Não teres deixado nada. E não vais deixar nada nem uma pequena perspectiva de deixar nada. Ou alguma coisa, mas que nada vale. Ou seja, não seres aquilo que achas que poderias ser. Afinal não és. És outra coisa, mas não isso que querias, ou melhor que sonhas. E isso é duro, muito duro. Ser ou não ser passa a ser respondido com não és! Mesmo que sonhes e tenhas toda a vontade. Nem se diria que é o momento dificil, é desesperante ao ponto de quereres pôr um termo à vida. Para que serve andar aqui se nada se fez, nem sequer próximo do que se sonha, deseja, ou lá o que é. E depois é querer fazer muito e diverso pensando que é possível acertar em todas. Como? Os melhores focam e tu nem sequer és o melhor. Se deixares uma criança inteira e feliz, terás deixado muito. Melhor ser pai a sério do que um sonho, ou muitos sonhos, de realização impossível, só um, quanto mais muitos.

Publicado em O Ladrão | Etiquetas , | Publicar um comentário

desistir

-“Vim daí, de onde ninguém sabe, andei por onde ninguém quer, visitei lugares que nem eu queria e sucumbi à miséria psicológica: um cérebro mimado. E não pensei que sobrevivesse. Não pensei que os braço fossem para trabalhar, embora os visse, aos braços dos outros, trabalhar todos os dias. Sempre pensei que valia a pena desistir, extinguir a vida era o melhor, e só lamentava desconhecer a morte. Avisei o silêncio, vou desistir ”- narrou a Maria -”Puta de vida esta, a minha! Que eu havia de ter… um infindável ir e vir… partir e chegar… carregando sacos imundos, cheios de nada.” – e não terminou – “Fechei a porta mas deixei um candeeiro de luz ténue, bem sei, para iluminar-lhe a alma, não fosse esquecer-se que o caminho não se faz de braços caídos, nem escondendo a cara comprometida com o passado, que se conta com seringas, esmolas, sem caminho, errante e errado”- Recostou-se resignado, entre triste e orgulhoso.

O Ladrão (rascunho), Ago. 2016, Franz E.

 

Publicado em Franz E., literatura, O Ladrão | Etiquetas , , , | Publicar um comentário

Matilde

Matilde era a sua filha. O Verão ia de rompante quando a viu correr passeio rio acima e sentiu-se sereno, cumpridor, responsável, conseguia fazer crescer uma criança de pouca sorte nascida, tal como prometera, mas a outra sorte acarinhou-lhe o futuro com avó e um amigo que se tornou pai. Sereno como um rio que corre. Nem se atreveu a chorar esta felicidade, tão grande. Deixou que atravessasse todo o corpo, nem a travou, nem mendigou, nem se lamentou, nem se atreveu, pronto, isto era ser feliz e ele queria sê-lo. E ficou tanto tempo com um sorriso que Matilde o acordou – ” que sorriso é esse de bochecha a bochecha?”-

-“É felicidade é felicidade minha querida”- deu-lhe um abraço, e sentiu que podia morrer agora, que a vida toda fazia sentido, apenas por este abraço.

2ªparte: o sonho (rascunho de O Ladrão)

Publicado em Franz E., literatura, O Ladrão | Etiquetas , , , | Publicar um comentário

em parte incerta

José, O Quinas, vivia em Lisboa, em parte incerta, junto a um beiral que o abrigasse da noite, das agruras do tempo maldito e dos outros, com fome, tudo assaltam. A rua era a sua casa. Esquecera a outra, a primeira, dizem até que da primeira não se esquece, e não tenho a certeza se ele a esquecera, acho que era mais do que isso, já não confiava nela, não esperava nada dela, a original não lhe dizia nada, era nesta que vivia. Aliás, não a visitava, nem sequer sabia lá ir. Ficava ali para Este, por detrás de uns pinheiros, ao pé de outras casas tão pequenas como aquela. E o dia, esse já esquecera, como os outros, desde há tempo mais esquecido ainda. Outros tempos que não lhe faziam bem recordar, a condição de mais velho pedinte não lhe dava nenhum atributo especial, nem sequer estatuto, muito menos temperança. Sabia melhor onde ficavam os melhores lugares, não o envergonhava pedir, e as dores, ou os ditos ossos do ofício não os sentia. Se a coisa rangia, deixá-la ranger. Se estava mais frio, deita-lhe mais um cartão em cima, se chovia, deixa estar molhado. O corpo acostuma-se. E se amanhã não acordar, que importa. Vem outro ocupar o lugar, sorte para ele. A vida vai e vêm com as ondas da praia. Não pede autorização e não está aqui por nenhum motivo humano em especial. É. Pronto. Não há propósito. Nem designio. Não estamos aqui por razão nenhuma.

Publicado em O Ladrão | Etiquetas , , , , | Publicar um comentário

sopa

Parece e é simples. Uma sopa. Feita por ela. A Natália. Ou melhor, a minha avó. É de facto a minha avó. Embora não o seja por família. Ela adoptou-me como neto e eu a ela como avó. Foi uma coisa sem explicação. Mas aconteceu assim mesmo. Os anos passaram e fiz-lhe um pedido.  Pedi-lhe que me ensinasse. A fazer a sopa, digo eu. A dela, aquela de feijão, é isso? disse ela. Era mesmo. E foi assim. Desde que faço a sopa e sempre que a faço é como se ela estivesse perto, mesmo ali ao lado, até posso tocá-la, dizer olá sem que ninguém saiba.

Publicado em Franz E., literatura, O Ladrão | Etiquetas , | Publicar um comentário